domingo, 1 de agosto de 2010

Três palavras


(tortura nunca mais)



Estou nu.

Em cima de uma cama e nu. Apenas umas finas vestes me cobrem.

Meus ossos todos doem. E muito.

Deveria ser culpa do frio. Mas para que esse frio todo?

Deve ser por isso que eu estou nu, alguém talvez quisesse que eu sentisse todo esse frio... talvez tenha sido volitivo, proposital.

Mas onde estou? Sinceramente não faço idéia....

Tento me levantar... não consigo: estou amarrado!!

Tento esquadrinhar melhor a minha volta, em busca de informações que possam diminuir minhas dúvidas. Só consigo fazê-lo com muito esforço, porque praticamente estou sendo obrigado a olhar fixamente para o teto. Uma brancura fria, sem vida, enfadonha, domina a minha visão. Após duas horas aquela visão persistente e inalterada passa tornar-se deprimente, após 24h passar a ser progressiva e paulatinamente mais agoniante, torturante.

Ah, será que é isso? Nu numa cama, amarrado, uma dor intensa e progressiva causada pelo intenso frio, e aquela visão desesperadora daquele branco sem fim do teto... Estaria sofrendo uma espécie de tortura?

Essa minha hipótese começava a se tornar mais verossímil quando percebo novos fatos.

Em cima da minha cabeça uma luz forte me ilumina. A principio poderia até passar despercebida. Decerto, não é a intensidade dela que incomoda, mas a sua inalterabilidade permanente. Está sempre lá, 24horas por dia. Fazendo você perder qualquer noção do que é dia e noite. Com certeza quem a colocou tinha o desejo de causar uma profunda confusão em mim. Aos poucos, você se vê completamente desorientado, desnorteado, o passar do tempo fica impossível de ser dimensionado, nem as horas, muito menos os dias. E essa incerteza com o passar dos dias causam uma complexa angustia em você.

Onde estou? O que estou fazendo ali? Para que aquele frio todo?

Para a minha alegria vejo pessoas a minha volta. Várias pessoas. Andando de um lado a outro. Por um momento sinto uma gostosa sensação de esperança revigorar. A minha alegria, porém, dura pouco. E prontamente transforma-se em medo, pânico. Todos a minha volta estão encapuzados. E me ignoram completamente. Tento me comunicar, tento falar com eles. Contudo, só então percebo que não consigo emitir nenhum som. Uma espécie de tubo em minha boca impede qualquer comunicação.

E como nada é tão ruim que não possa piorar. Ainda faltou mencionar a parte mais torturante dentre todas. O som do ambiente. Um ruído metálico, ingênuo, aparentemente inofensivo, começa a soar intermitentemente acima de mim. Seu som não é alto. Em contrapartida, sua permanência intermitente é enlouquecedora. E se não bastasse, outros sons diferentes ficam se alternando, se somando, agoniantes, torturantes.

Só então é que percebo tudo. Estava sendo realmente torturado! Tanto física quanto psicologicamente. Nu numa cama, com muito frio, uma luz inquietante sobre mim, sem conseguir falar nem me mexer, sons irritantes, e encapuzados a minha volta.... angustiado, confuso, apavorado...

... o que teria feito para merecer todo aquele calvário? Quem eram eles? O que eles queriam de mim? Por que não conversavam comigo?...

Meus devaneios são interrompidos quando um encapuzado subitamente se aproxima. Pra minha surpresa, ele está rindo. Fico atônito sem entender direito: não havia motivos para riso. Meu coração começa a acelerar, o medo aumenta. Então escuto em alto e bom som.

“não vai doer nada”

Quando olho pra sua mão, ele empunhava um instrumento que não o identifico muito bem. Aquela cena não parecia ser nada auspiciosa. Fico tenso. “Como assim não vai doer nada?! Já estava doendo... o medo intenso também dói”

De repente, sinto uma dor fina excruciante da minha própria carne sendo perfurada. A dor, porém, logo cessa..... passo alguns segundos eternos de apreensão, e logo a seguir ela, infelizmente, volta a se repetir. Lancinante. Sangue. Pânico. Meu coração acelera, meus olhos arregalam tentando se comunicar... o pavor decerto tornava aquela sensação muito mais desagradável. De repente, a dor volta a cessar. O encapuzado se afasta. Alívio... porém mais uma vez, minha alegria dura pouco. Ele não satisfeito com meu martírio, deu a volta na cama e foi postar-se ao lado do meu outro braço. Seu olhar era fixo, impassível, empedernido. O medo pela dor iminente começava a ser pior que ela própria. Meu coração que já acelerava, agora palpitava... e novamente a dor.... fina, mais intensa, persistente, rasgando minha carne e dilacerando minha alma, uma, duas, três vezes.

De repente, risos! Meu torturador sádico voltava a sorrir. “Consegui!” disse ele.

Eu apavorado, ele aliviado. Eu chorava, enquanto ele ria. Eu cada vez mais confuso, enquanto ele se afastava, sem explicações, mais uma vez de mim.

Sem ter tempo de recuperar daquele sofrimento. Observo três outros encapuzados se aproximando. Eles param ao meu lado. Não dizem nada. Provavelmente, algo grandioso estava por perto. Grandioso para eles, apavorante para mim. Seria esquartejado naquele momento? Ou eviscerado? Quanto será que um coração aguenta bater antes de literalmente explodir?

Sem falar nada, eles tiram as minhas únicas e finas vestimentas... expondo-me completamente naquele ambiente inóspito e de temperatura polar. Meu nervosismo aumenta, não saber o que aconteceria, causava um temor indescritível. De repente, sou colocado abruptamente de lado, o tubo em minha boca começava a dificultar minha respiração. Começava a ficar tonto, estava sufocando, um sono intenso me invadia. Seria uma morte lenta, dolorida, trágica. Enquanto sofria com a falta cada vez maior de oxigênio, meus carrascos, molhavam meu corpo com uma água gelada. No início não entendi o porquê. Quando a dor dos ossos aumentou sobremaneira que entendi como uma provável técnica chinesa de tortura. O sono aumentava, minha consciência diminuía, as dores atenuavam, estava ficando entorpecido, devido a provável morte iminente. Quando então sou novamente mudado de posição de volta a ficar com a imensidão do teto no meu campo visual. É quando a respiração volta a ficar mais fácil. O ar entra provocando um alívio delicioso. Com a volta da consciência, voltam também as dores e o medo.

Meus algozes então viram-me novamente, só que para o outro lado. Volto a respirar com dificuldade, quase não entra ar. São eternos segundos de sofrimento naquela respiração arquejante. Meus dedos da mão começavam a ficar arroxeados. O sono volta a bater. Restando-me poucos segundos de consciência, tento, naquela visão lateral, captar alguma informação do ambiente que possa me esclarecer alguma de minhas muitas dúvidas. Porém, para meu infortúnio, uma imensa cortina cobre todo o meu NOVO campo visual. Fico triste. O sono aumenta, começo a arquejar mais. E apenas quando estou prestes a desmaiar mais uma vez, talvez pela ultima vez, percebo no chão um grande balde. Nele há escrito com letras maiúsculas bem nítidas: três palavras. Mesmo com a vista embaçada, consigo lê-las claramente. E elas elucidam como que por mágica todo esse torturante mistério....


“UNIDADE TERAPIA INTENSIVA”

sábado, 24 de julho de 2010

O Véu pintado



Da palavra latina “patior” que significa SOFRER, derivou a palavra que todos conhecemos “PAIXÃO”

O despertar de uma paixão” é um filme de 2006, ambientado na década de 20 na China, e estrelado por Naomi Watts e Edward Norton.

Dr. Walter Fane (Norton) é um bacteriologista, pesquisador do governo inglês, que está PRESTES a ir morar na China. Ele, porém, passa por uma situação que, sem dúvida, TODOS NÓS já passamos, e a grande maioria AINDA SONHA PASSAR NOVAMENTE. Ele se apaixona perdidamente. Cataclismaticamente, abruptamente. AMOR À PRIMEIRA VISTA!! Nada mais romântico.

A sua flechada cupídinea acontece durante uma festa londrina, em que ele observa Kitty (Watts) descendo uma escada. Os traquejos, as feições faciais, a forma elegante de se locomover, fazem o Dr Fane, pronta e inexplicavelmente terem A APARENTE CERTEZA que ele havia encontrado quem ele tanto procurara. Assim mesmo, apenas ao vê-la descer a escada. Como se fosse um segundo mágico, miraculoso.

Como ele tinha pressa, devido a sua viagem iminente para a China: partiu para o ataque para tentar conquistar seu mais novo desejo.

Por outro lado, nossa protagonista, uma jovem inglesa superficial, egoísta e mimada não sentiu a mesma PAIXÃO arrebatadora. E mesmo sem haver uma mutualidade na PAIXÃO, aceita o casamento porque estava sendo pressionada pelos seus pais a casar-se.

Uma frase marcante do filme é a proferida por sua mãe nesse momento:

Por quanto tempo você ainda espera que te sustentemos

Pois é. Mulher custa caro mesmo. E como diz Xandinho do Aviões do Forró: “mulher é luxo. Só pra quem pode mesmo”. E para as ainda solteiras de plantão, quase “pra titia”, que ainda moram na casa dos pais, é uma preocupação AINDA presente, porém em proporção bem menor que em outras épocas. A preocupação de ainda estar sendo sustentada pelos próprios pais.

Mas enfim, eles se casam e vão a China. Num relacionamento fadado ao insucesso, pela não total reciprocidade da paixão. É tanto que logo Kitty termina ficando encantada por outro homem e se envolve numa intensa relação extraconjugal. Intensa, avassaladora. Ela estava completamente APAIXONADA. E isso justificou a traição para sua consciencia.

Mas eu pergunto a vocês: será que o relacionamento deles estava fadado ao insucesso mesmo? Se formos olhar pelos olhos da PAIXÃO decerto que sim. Mas por outro lado, vejam só: Dr Fane, era médico (mas poderia ser qualquer outra profissão que proporcionasse uma perspectiva de futuro financeiramente estável), responsável, bonito, carinhoso com a esposa, educado, que a amava absolutamente. Era uma pessoa CHEIA DE VIRTUDES.

O problema é todo esse: FICAR APAIXONADO e todos os sentimentos que o envolvem é uma das MELHORES sensações do mundo. TODOS aqui já passaram por isso. Ou não é? Tem sentimento melhor do que de repente se perceber com falta-de-ar, coração acelerado, ansioso, nervoso ao extremo, e, às vezes, apenas pela simples visão de outro se aproximando? TODOS aqui QUEREM passar por isso. Por dentro todo ser humano é igual: impaciente, sonhador, iludido... Só que os mecanismos responsáveis por deixar alguém nesse estado onírico ainda são cheios de misterios. Todos aqui conhecemos a bem-sucedida frase do filósofo Blaise Pascal que define muito bem essa situação: “O coração tem razões que a própria razão desconhece”.

Porém, aonde eu quero chegar é: Será que a maneira mais eficaz para se encontrar o parceiro DA SUA VIDA, é esse: Achar que ele vai aparecer na sua vida numa paixão avassaladora?

Ou NÃO É dessa maneira que a maioria das mulheres espera o seu príncipe encantado?

Voltando ao filme...

Dr Fane descobre as traições de sua esposa. O que seria suficiente para justificar um pedido de divórcio, e proporcioná-la uma destruição moral e social para a época. Mas, para a surpresa do filme, ele não dá nenhum piti e ainda planeja algo pior para ela. Ele aceita um emprego como médico, num vilarejo longiquo, paupérrimo, e violento da China, onde praticamente toda a população está morrendo de cólera. Tamanha pobreza, tamanha desgraça humana, além do risco inerente dela própria contrair a cólera, seria decerto uma punição bem mais severa para a “burguesinha” Kitty.

E é justamente no ambiente inóspito desse vilarejo que o filme começa de fato.

Vale ressaltar que ambos agiram motivados pela PAIXÃO. Ele quando a viu descendo a escada, invadido pela falsa certeza, e não medindo esforços para tê-la como esposa. E ela ao se aventurar numa relação extraconjugal sem futuro justamente porque não conseguia parar de pensar no amante.

Cada vez mais me convenço disso: quando você norteia suas escolhas da vida APENAS (apenas!) pelos olhos da PAIXÃO, as possibilidades de “dar merda” são muito grandes.

No ínicio da nova vida no vilarejo, Dr Fane não consegue superar o desprezo e a distância que a traição conjugal da esposa criou entre eles. Além de ao conviver mais com ela ter podido enfim conhecer a pessoa mesquinha que ela era. E ela se sente inútil naquele ambiente em que nada pode contribuir, e com o marido ignorando-a completamente.

Porém com o tempo as coisas começam a mudar. Por um lado, ela começa a ficar fascinada pelo o caráter e o trabalho abnegado do marido, e tenta aos poucos uma reaproximação, fazendo-o refletir sobre como o modo do ínicio do casamento foi errado. Casar sem conhecer a fundo a pessoa, suas verdadeiras qualidades sem supervalorizações, tampouco seus defeitos. Casar com a ilusão cruel do outro possuir qualidades inexistentes.

Numa dessas reflexões, Kitty, profere, para mim, A FRASE DO FILME:

“QUEM DISSE QUE A MULHER SE apaixona PELAS VIRTUDES DO OUTRO”

Não existe frase mais certa mesmo. Decerto, se apaixonar não é fruto de lógica matemática. Não é fruto de uma simples análise de virtudes e qualidades. Até seria bom, se fosse assim. Mas ninguém se apaixona porque ela é educada, veste-se bem e é fã dos Los Hermanos. Apaixona-se pelo cheiro, pelo mistério, pela paz que o outro lhe dá, ou pelo tormento que provoca; pelo tom de voz, pela maneira que os olhos piscam, pela forma como ela prende os cabelos, pela fragilidade que se revela quando menos se espera

A paixão simplesmente aparece e pronto, sem avisos prévios. Porém, UMA COISA É SE APAIXONAR E VIVER AQUELES SENTIMENTOS MÁGICOS, na maioria das vezes efêmeros. Por outro lado, É DESEJAR VIVER UM AMOR PRA VIDA TODA. Paixão sempre acaba, e isso SIM é uma certeza matemática. SEMPRE. Em algumas situações, ela acaba e dar lugar a um verdadeiro amor pra vida toda. Sem dúvida, essa é a forma de amor que todos que almejam construir uma sólida família, sonham em viver: começar com uma paixão avassaladora e terminar com um amor sereno, tranquilo, respeitoso, reconfortante.

Mas como todos sabemos, a maior parte das situações não é assim. O que vem depois que uma paixão acaba, na maioria das vezes são brigas, desrespeitos, confusões, indiferenças. Por isso, os inumeros namoros que começam e não dão certo.

As pessoas DECIDIDAMENTE não sabem escolher seus próprios parceiros.

... voltando ao filme...

Durante os difíceis momentos no pobre vilarejo, os dois ao se conhecerem melhor, qualidades e defeitos, terminam, vejam só, se amando loucamente. Daí o título em português “O despertar de uma paixão”, ao invés do título em inglês que destacava a traição do casamento.

Temos que concordar que esse amor dos dois ocorreu apenas por PURA SORTE! A esposa que só depois passou a se encantar com as virtudes já existentes do marido, e este que da mesma forma se apaixonou pela pessoa que ela mesma nem sabia ser, ao se descobrir com qualidades incríveis naquele ambiente inóspito
(daí a sorte).

Por isso, se você espera que se seu príncipe encantando venha na forma de uma paixão deliciosamente encantadora não se queixe depois se não der certo. Será mera questão de sorte o sucesso deste relacionamento.

Atente para o mais importante: taquicardia, palpitações, pensar no outro o dia inteiro sem parar como se fosse um TOC, não são os indícios mais fidedignos que ele é a pessoa certa para você. SEM DÚVIDA, podemos afirmar que NAQUELE MOMENTO não existirá pessoa que lhe fará MAIS FELIZ do que ele. Mas provavelmente uma felicidade passageira, enquanto durar a paixão.

Mas e afinal quais são os indícios mais fidedignos. Só existe uma pessoa que pode responder isso, você mesma. Só você sabe as coisas que mais procura no outro, assim como os defeitos que menos consegue tolerar. As qualidades que mais me atraem, particularmente, as deixei expostas no texto anterior. Mas um bom termômetro para saber se vai dar certo a relação, e isso serve para todos os casais, é analisar a qualidade da conversa entre vocês, se você não sente o tempo passar, se passaria horas conversando com a tal pessoa.

Por isso, NÂO SEJA BURRO, não se permita apaixonar-se por alguém que você pouco conhece. A chance de “dar merda” é alta.... depois você vai estar sofrendo, ILUDIDO, por um “amor” que nunca daria certo... e você se sentindo “mal-resolvido” por algo que nem vale a pena....

Tente inverter a ordem natural das coisas. Escolha a pessoa pelas virtudes, e só depois “pague pra ver” se surge uma paixão avassaladora daí....

E por isso o motivo real desse texto

....

Você não me causa mais palpitações, não me dá taquicardia. Falta de ar? Nem um pouquinho. (ta bom, ta bom, só um pouquinho) Não penso mais em você como antes, como um TOC, todo dia e o dia todo. E sem dúvida, sendo bem sincero (redundante falar isso), você não é a mais bonita, nem a mais inteligente, ou a mais simpática, tampouco a mais rica que eu já tive um relacionamento. Mas se sobressai pelo conjunto da obra (como você mesma falou e não deixou eu terminar a frase). A mistura onírica de suas várias qualidades a transformam numa pessoa deliciosamente peculiar e interessante. E ainda mais quando sob efeito de duas doses de vodka. Sem falar nas qualidades que eu mais gosto: seu bom-humor, e o prazer incrível de passar horas conversando contigo.

Airam adraude ed anecul ojuara....at an aroh ed somralup asse ariemirp esaf

quinta-feira, 3 de setembro de 2009

I Still Haven't Found (What I'm Looking For)



(Após um ócio criativo de mais de um ano... tiro as teias de aranha desse blog com um tema bem interessante: Um texto sobre a mulher que quero pra mim)

(Tudo bem, tudo bem.... deveria ter escolhido outra foto já que essa não condiz muito com o propósito SÉRIO desse texto.... )

(Esse texto será útil também para você, caro leitor, que ainda não encontrou o seu par ideal, ou mesmo que aparentemente só tem tido frustrações amorosas. Por ex. se você já passou pela situação em que achava ter encontrado alguém especial, mas a convivência mostrou que ela não combinava em nada com você. Provavelmente, o erro foi seu. Não deve estar sabendo identificar as pessoas REALMENTE especiais. Assim, com este texto você aprenderá COMO diferenciar as pessoas aparentemente especiais (pra você não ficar perdendo tempo) das REALMENTE especiais, aquelas que combinam direitinho com seu jeito de ser!!!)

Nós sempre adoramos comemorações. Os brasileiros em especial. É cultural, está em nosso íntimo. Por isso, nossa rotina é recheada de situações que visam a elas. Vou me prender apenas ao exemplo dos vários feriados em nosso calendário. A maioria deles ao lado de algum significado (por exemplo, lembrar grandes feitos, como 15 de novembro – proclamação da República) sempre vem com festas em massa, algumas vezes, até, desfocando o significado original. Exemplo: feriado de 7 de setembro e todo mundo numa balada em PIPA, mas comemorando o que mesmo?

Outras datas comemorativas, ainda, têm algo a mais: geram profundos questionamentos em nós mesmos. O réveillon e o próprio aniversário, por exemplo. Além do significado, da comemoração ainda nos incitam reflexões.

O réveillon é o momento de se refletir sobre o ano que findou, nossas conquistas e os acontecimentos mundiais, renovar sonhos, retraçar objetivos e revigorar esperanças. Já no seu próprio aniversario a reflexão é, ainda, maior. Geralmente pensa-se sobre todos os aspectos de sua própria vida: a profissional, a amorosa, a familiar, os amigos; decididamente é um bom momento pra repensar o próprio rumo que se está dando na vida.

E o que dizer de alguém que acaba de comemorar a emblemática marca dos 30 anos? Concorde comigo que não deve ser fácil. Ou melhor, quem já comemorou deve achar, hoje, após alguns anos, que não é, na verdade, nada demais. Quem acaba de comemorá-la, como eu, deve ainda achar uma situação difícil, porque muitos, assim como eu, deve lembrar bem do tempo em que não se conseguia imaginar com essa idade por ela estar ainda “muito longe”. Pois é. O tempo passa sem perceber, e o “muito longe”, quando você menos espera já está batendo a sua porta. Inexoravelmente. Exatamente da mesma forma, quando com 12 anos, nem me imaginava com 20. Mas, enfim, não tem como fugir.... resta-me o consolo de, hoje, poder deliciar o fato de não conseguir me imaginar como estarei com 40 anos.... e ainda de achar que esta idade ainda está, agora, “muito longe”.

Os trinta anos, sem dúvida, são uma marca importante. E diferente das demais. E talvez, dentre todos os aniversários, a mais marcante por alguns motivos. É interessante arrolá-los. Chega-se a tão temida fase dos “nta” (trinta, quarenta, cinqüenta, etc). É como se até os 29 anos estivesse “tranquilo”, porque ainda são os meus “vinte e poucos anos”, já vencida a barreira dos trinta, aí não, aí já é TRINTA, soa mais forte, mais amedrontador, é mais imponente, a responsabilidade parece aumentar, a própria pessoa inclusive parece se cobrar ser mais adulto do que quem ela mesma era no dia anterior. Ademais, de tão marcante tem até adjetivo específico pra designar essa fase: BALZAQUIANO, tirado do livro “A mulher de Trinta”, de Honoré BALZAC, romancista francês, que hoje pode ser usado para quem já tem 30 anos ou mais. Além disso, apesar de ser um aniversário como qualquer outro, é uma fase que fica cada vez mais forte a necessidade de largar de vez aquelas despreocupações típicas dos adolescentes e adultos jovens de hoje em dia. Sobretudo para os, assim como eu, que sofrem da SÍNDROME DO PETER PAN, onde isso é mais evidente. Passa a existir uma autocobrança para se ser adulto de fato, e todas as suas peculiaridades envolvidas. Por exemplo. Nos jovens e imberbes contemporâneos não é, como era há alguns anos, preocupação corriqueira a necessidade em casar; hoje em dia, coloca-se a necessidade de se firmar profissionalmente em primeiro plano. Outro detalhe, é que as mulheres não mais nascem apenas para casar, o que é bom, porque agora sendo mais independentes tornam-se pessoas bem mais interessantes assim como também ajudam nas despesas da casa, que são bem maiores do que em outras gerações. O ruim disso é que elas (as mulheres contemporâneas) também estão com a preocupação de se firmar profissionalmente primeiro também, aí não é mais tão comum uma mulher que queira casar “desesperadamente”. E o homem moderno também está tendo que se readaptar a essa nova mulher, que não é mais aquela lesinha que aceita tudo, que fica em casa esperando o homem voltar da farra, cheio de desculpas esfarrapadas. Não se surpreenda, prezado leitor masculino, caso esses papéis se invertam e chegar o dia em que nós é que teremos que ficar em casa esperando a mulher e torcendo para que não venha com indícios de algo mal explicado, cheirando a perfume masculino, ou com a roupa cheia de cabelos curtinhos. Será que chegará a época de termos que fingir que acreditamos em tudo? Mas, enfim, se não É COMUM, para os dias de hoje, se preocupar tanto com o casamento para alguém que tem menos de 30, para alguém que já tem 30 e AINDA ESTÁ SOLTEIRO, essa preocupação passa a ser inevitavelmente corriqueira.

E é mesmo, porque inevitavelmente até o ciclo de amizades vai mudando. De repente, todos os seus amigos da faculdade já estão ou casados ou namorando há bastante tempo com vistas a casar brevemente. E você começa a sair com novos amigo mais jovens.... os quais daqui a pouco começam a casar também..., e você, ainda solteiro, vai se sentindo cada vez mais sozinho, e começa a pensar se está fazendo algo de errado.

E dentre as VÁRIAS reflexões DESSE meu marcante aniversário, fixei-me sobre uma delas – “a mulher da minha vida que ainda não encontrei” – e, então, resolvi escrever este texto.

Sobretudo por perceber que não estou só nessa problemática. A quantidade de insucessos de relacionamentos nunca foi tão grande na história mundial. 60-70% dos casamentos hoje terminam em divórcio em até 5 anos, sem falar da quantidade absurda de namoros que não dão certo hoje em dia...

Neste aspecto, por já ter namorado várias vezes e ainda continuar solteiro sou freqüentemente mal interpretado por todos a minha volta. Não vou aqui expor, prezado leitor, quantas vezes já namorei, primeiro, para não chocá-lo (rsrs); segundo, para precocemente não já o induzir que provavelmente o problema de nunca ter dado certo com ninguém ser estritamente meu. O número de namoradas prévias, decerto, não é escasso, mas prefiro encará-lo antes como a mais pétrea insígnia de uma constatação sobre minha pessoa: eu, coitadinho, decididamente não dei sorte com o amor! Ou melhor, dei muita sorte!!! Porém, infelizmente, ela foi bem efêmera algumas vezes!

Posso até dizer, inclusive, sem exageros, que por conta de já ter namorado algumas vezes já sou, hoje, quase uma FIGURA FOLCLÓRICA RECIFENSE. Onde a maioria das pessoas parece ter a certeza que não vou conseguir dar certo com ninguém, julgando ser a culpa do insucesso toda minha, que meu fadário é ser um orgulhoso solteirão convicto, que busco uma mulher perfeita inexistente, utópica.... Chegam, inclusive, ao comentário mais estapafúrdio: o de que quando a encontrar, irei traí-la sequenciadamente, como se tivesse um instinto de predador descontrolado e desenfreado. Quanta maledicência!! Como querem limitar minha personalidade!! Quando escuto isso de pessoas que me conhecem apenas superficialmente, não me incomoda tanto; bem diferente quando vem daqueles que me conhecem nas minudências. Primeiro, por mais que goste da vida de solteiro, por mais que goste, cabe sublinhar, jamais me considerarei orgulhoso, como pode até parecer, por manter-me tão veementemente nessa vida cujas noites são solitárias no fim. Sempre haverá em mim aquela inveja saudável dos que voltam para casa com a sua parceira felizes da vida. Segundo, não é que eu busque uma mulher perfeita, até porque já sei que isso não existe há muito tempo, mas quero alguém que seja perfeita pra mim. E terceiro. Aqueles comentários são um disparate por que logo eu, mesmo que a primeira vista possa não parecer, nunca traí namorada alguma. Diferentemente da imensa maioria dos homens que conheço. E a lógica que uso pra isso é: já sou bastante danadinho quando estou solteiro (e a origem de toda a maledicência que me cerca), e se continuar a ser assim quando estiver compromissado o negócio desanda de vez. Não passo pelo purgatório nem a pau.

Mas e, afinal, por que nunca dei certo com ninguém? Será que o problema é todo meu mesmo? Quem será a mulher na qual “I still haven’t found”??? Sinceramente não sei... e pior que ao olhar a minha volta (agenda telefônica, “amigos” do Orkut e MSN) leva-me a crer que essa pessoa a quem “I’m looking for” eu AINDA não a conheci.

Tá bom de enrolar....

Vou falar as características que busco em uma mulher, e que você, caro leitor, deve buscar também. É obvio que nem tudo o que eu busco interessará a você também; entretanto, existem coisas que são universais, sem as quais nenhum relacionamento terá sucesso. E é através delas que você poderá avaliar se vale a pena investir em uma paquerinha que você acabou de conhecer ou não.

Os atributos menos importantes...

1 EDUCADA

Sei que muita gente não faz muita questão desse atributo, mas é algo que devido a minha formação familiar eu sou incitado a valorizar.

A maioria das pessoas a minha volta e dos leitores desse blog acho que pensam semelhante também. Pela minha personalidade, não daria certo nunca com uma mulher que como Marisa, minha empregada, bem definiu ao modo dela “não sabe entrar nem sabe sair”. Em alusão a saber se portar, a saber ter bons modos, boas maneiras.

Mas isso é algo que não obviamente não é universal, pois se eu fosse uma pessoa cultural e socialmente menos favorecida, jamais daria certo com alguém muito cheio de cerimônias.

2. CANTAR BEM, FALAR MAIS DE UM IDIOMA, ADORAR VIAJAR.

Seriam ótimo as três coisas. Pois, fico imaginando a menina com uma voz deliciosamente imponente, de repente, num bar com música ao vivo, sair da mesa e durante o intervalo do cantor pegar o violão e cantar uma música pra mim, que poderia ser bem “Eu quero te roubar pra mim...”. Ou mesmo nas minhas várias festas familiares em que sempre há cantorias, eu e ela, estaríamos nesses eventos fazendo um showzinho a parte. Ela cantando e eu dançando, obviamente. Por que eu cantar, como vocês já devem saber, nem escondido num chuveiro.

Falar mais de um idioma seria ótimo para as várias viagens que pretendo fazer após casar. Além do que está provado que duas das coisas que mais desenvolvem um cérebro é aprender a jogar xadrez e a falar outro idioma. Assim, uma pessoa que fala mais de um idioma já indica que ela possui um grau de inteligência no mínimo interessante. Mas, dificilmente desistiria de alguma pessoa só porque ela não sabe cantar ou só fala o português. Por esses motivos: nunca!

No entanto se julgo esses dois atributos apenas interessantes, jamais fundamentais, não posso falar o mesmo da característica de gostar de viajar. Não consigo me imaginar casando com alguém que não gosta. Até porque um de meus projetos de vida de casado é conhecer o mundo inteiro, desde lugares clássicos como Buenos Aires, Nova York, Paris, Londres, Lisboa, etc. Até lugares mais exóticos como África (Marrocos, Egito), Jordânia, Leste Europeu, China, Índia, Tigres Asiáticos, Nova Zelândia. E todos sabemos que viagens assim são bem melhores com uma boa companhia, e pra ser boa companhia em lugares de culturas tão variadas, apenas se gostar muito de viajar.



Os atributos mais importantes...

3. GOSTAR DE CRIANÇAS E DE CACHORROS.

Se você tem a pretensão de que sua atual namorada possa vir a ser a mulher que você sempre sonhou casar e construir uma família é fundamental avaliar como ela será como mãe. Lembre-se que o amor é, de fato, cego, e os tempos de “alegria” dos primeiros anos do relacionamento pode deixá-lo incapaz para fazer avaliações fidedignas sobre o seu par. É bom ter isso em mente para não ser pego de surpresa após já ter concretizado o casamento e os filhos; para só então descobrir que sua parceira na verdade se tratava de uma desequilibrada problemática disfarçada. E ver o que era um verdadeiro conto de fadas se transformar numa novela mexicana chinfrim. Aí o relacionamento inevitavelmente terminará, porém seus filhos, além de já carregarem 50% da linhagem genética daquela doida, ainda irão continuar convivendo diariamente com uma pessoa problemática. E isso prejudicará em muito a formação da personalidade deles.

Uma excelente forma de saber se a mulher será boa mãe é analisando a espontaneidade dela com outras crianças, ou até mesmo com cachorros. Não é garantido que uma mulher que adora crianças e que se dá muito bem com elas tornar-se-á exímia mãe, carinhosa e boa educadora. Entretanto, decerto que uma que não goste de crianças dificilmente será boa mãe.

Por isso, pra mim, tem que gostar de crianças, bebês, e se dar muito bem com eles impreterivelmente.

4. FAMÍLIA

Uma coisa que sempre costumo falar é: mostre-me teus pais que te direi quem és. É fundamental que a pessoa que você procura tenha uma família equilibrada, estruturada por trás. De preferência que os pais ainda sejam casados e mantenham uma relação saudável. É importante que sua possível candidata a esposa tenha construído a própria personalidade num ambiente dentro de casa harmonioso, com os pais sendo o exemplo do sucesso matrimonial. Se eles ainda derem sinais de estarem “permanentemente namorando”, melhor ainda.

Bem diferente daquela pessoa que construiu a personalidade num ambiente de pais separados, cuja separação foi traumática, que viviam brigando, cujo pai aprontou muito com a mãe, e esta sofreu demais. A menina que viu tudo isso de perto, já tem no seu íntimo muito receio quanto a possibilidade de um sucesso matrimonial.

Se bem que SEM DÚVIDA bem mais importante do que a permanência dos pais casados, é a estabilidade e equilíbrio tanto deles quanto da família dela. Assim, sendo até melhor pais separados, mas que mantenham uma relação saudável, do que os casados que vivem fazendo barracos.

Além de tudo isso, toda pessoa que constrói sua própria personalidade numa família de pais separados tem uma propensão bem maior a ser uma pessoa problemática. E olhe que falo isso com conhecimento de causa, porquanto eu mesmo sou filho de pais separados e percebo o quanto esse fato foi primordial pra alguns desequilíbrios e instabilidades em minha personalidade.

Por isso, sempre, sempre, friso, já nas primeiras saídas com a provável candidata vá obtendo informações sobre não só a família dela com também a relação dos seus membros entre si. Até porque você também poderá avaliar como é a relação dela com pessoas que ela convive há muito tempo. Se só tiverem loucos, briguentos e problemáticos, sua mulher por mais interessante que seja, também deve ser muito assim também. E se até esse momento você não tiver percebido nenhuma característica meio desequilibrada dela, pode ter certeza que deve estar disfarçando muito bem. Fique atento!

E sempre é bom avaliar a mulher dessa forma, pois caso você morra (a probabilidade de você morrer antes dela é altissima) ou o seu casamento não dê certo a sua prole será criada nessa outra família. Sem falar que se forem todos loucos, você já terá legado essa padrão genético aos seus filhos também.

5. SER ACEITA PELA MINHA FAMÍLIA

É bem verdade que chega um momento na vida de qualquer pessoa, que ela precisa abandonar a casa e a família onde morou pra construir a sua própria família e montar sua própria casa. E nesse aspecto é primordial apenas a mulher que ele escolheu, já que apenas os dois juntos é que terão a responsabilidade para construir o seu império familiar e econômico.

Entretanto, trará muitas situações desconfortáveis se a mulher escolhida não for aceita pela sua própria família. Se ela não se der bem com sua mãe, com suas irmãs, por exemplo, criará dificuldades futuras nos encontros familiares. E sem falar que sua família nunca se sentirá muito a vontade quando for a sua casa, já que também será a casa da mulher encrenqueira.

Na minha família, por exemplo, um ente bem próximo está prestes a casar com uma mulher complicadíssima, que praticamente brigou com todas as irmãs e a mãe dele. E pra surpresa de todos isso não diminuiu em nada a admiração e a convicção dele por ela. Ela provavelmente tem um projeto pessoal de querer isolá-lo da nossa família. Ela ter esse método estapafúrdio impressiona, mas ele se submeter a ele: choca!

Por isso, sempre procure pessoas que ao menos se esforçam pra manter uma relação saudável com a sua própria família. Se ela conseguir deixar todos apaixonados por ela, melhor ainda.

E apesar de não ser uma exigência estritamente necessária, a importância dessa característica deve ser extremamente relevada.

6 ANIMADA, ALTO-ASTRAL

Pra mim, pessoalmente, esse é um dos atributos mais primordiais. Uma verdadeira, conditio sine qua non. Decididamente não consigo conviver com alguém que “leva a vida extremamente a sério”. Até porque, nada contra quem não gosta, mas gosto de passar a maior parte do tempo falando besteiras, brincando, tentando tirar humor até de situações difíceis.

Alguns amigos meus costumam dizer que isso é coisa que geralmente quem busca são as mulheres. De fato, toda mulher gosta do homem que faz ela rir. E por alguns amigos meus, nós homens, não deveríamos nos importar tanto com a capacidade da mulher em nos fazer sorrir. Eles têm razão. Para mulheres isso é uma “exigência” bem mais importante do que pra nós. No entanto, não há como negar que estar ao lado de uma mulher espirituosa, divertida, engraçada, super animada, torna a convivência demasiado mais interessante.

E no meu caso, jamais conseguirei me relacionar com aquelas mulheres complicadas, encrenqueiras, meio rancorosas, como se fossem eternamente “mal amadas”.... e por mais que alguns prefiram estar com mulheres assim, com personalidade forte, mandonas, que fazem confusão com tudo; decididamente, com o tempo a relação tende a não dar certo. Inevitavelmente. Por isso, hoje em dia se já encontro uma mulher assim, já pulo fora de cara, não espero o tempo me mostrar óbvio (que não dá certo) quando já aprendi a identificar precocemente.

7 MORAR PERTO

Não adianta nada a mulher ser cheia de qualidades se ela mora muito longe. Obviamente não existem FÔRMAS de sucesso de um relacionamento, mas de forma geral não vale a pena investir em um relacionamento que JÁ COMEÇA com o casal distante. Namoro é essencialmente estar por perto, o contato físico (andar de mãos dadas, abraços, olhos nos olhos) é fundamental para se criar o vínculo afetivo aos poucos. A distancia essa importante etapa INICIAL fica prejudicada, além do que um simples bringuinha que poderia, se ambos por perto, ser resolvida com um abraço, à distância pode ganhar proporções imensas.

E o cineminha nos finais-de-semana, os almoços juntos de vez em quando, os fins de tarde juntos, as várias surpresas possíveis? Sem falar que a conta do telefone vai dar altíssima, além do gasto mensal pra ir ver a amada onde quer que ela more. Ainda mais construir do zero um relacionamento prioritariamente só com conversa por telefone, pelo MSN, pelo skype, decididamente não rola.

É bem diferente do casal que já namora a um certo tempo e apenas depois precisa se separar temporariamente pra morar longe. Neste caso, se o casal está super bem vale a pena investir; naquele outro modelo, não. Por mais triste que isso possa parecer. A não ser que você acredite serem muito fortes as evidências de que mesmo morando longe a pessoa que você ACABOU de encontrar é a pessoa certa pra você. Até porque se você é daqueles que acredita em almas gêmeas deve achar muito difícil ter tido a sorte de sua alma gêmea estar na mesma cidade e país que você.

Conheço um casal que apostaram dessa forma (se conheceram já morando em cidades diferentes, e insistiram com um namoro a distancia) e deram certo, hoje estão prestes a casar. Mas também conheço mil outros casais que tentaram e não deram certo, pelos motivos óbvios explicitados acima.

8. FÍSICO

Durante muito tempo achei isso uma importância secundária. Pra ficar uma noite numa boate não, é fundamental; mas pra namorar, considerava uma importância menor. Tanto que já namorei com meninas belíssimas, mas também já namorei com algumas meio feinhas. Sempre optei por buscar a essência das pessoas. Não que eu não valorize beleza física: óbvio que sim; mas num patamar um pouco menor que os a minha volta. Entretanto, percebi que com o tempo, basta o namoro dar uma esfriada que essa parte, antes coadjuvante, passa a ganhar mais importância.

Por isso, hoje em dia é um atributo que tem que ser mais valorizado. Não vá se aventurar com alguém que você não tem admiração plena pelo físico ou tampouco forte atração física, só porque ela é cheia de outras qualidades. Confie em mim, com o tempo não dá certo. Essencialmente, a mulher tem que ser bonita. Proporcionalmente bonita. Até porque não adianta você ficar também desejando alguém que você não pode conseguir. Não fique perdendo tempo atrás de uma Scarlett Johansson se por conta do seu próprio físico você só poderá conseguir alguém bem inferior, fisicamente falando. Só os doidivanas perdem tempo sonhando com algo irrealizável. Se bem que nesse aspecto, para nós homens, é bem mais freqüente encontrar casais onde a mulher é mais bonita que o menino, do que o contrário, já que os atributos que elas buscam são diferentes: buscam segurança, gargalhadas, inteligência, conforto, etc.

É evidente também que com o tempo a beleza física perderá sua importância, porque como todos sabemos o tempo muda a todos nós, sendo sem dúvida mais cruel com as mulheres do que com nós homens. Poucas são as mulheres que ainda se mantém “conservadissimas”, com pouco efeito crônico da gravidade, após os 40 anos, ainda mais se já tiverem tido dois ou três filhos, bem diferentes de nós homens que continuaremos coroas elegantes e charmosos. Isso não é marchismo, é uma constatação estatística.

Por isso é preciso escolher uma novinha gatinha AGORA, que depois ficará acabadinha aos 40, do que escolher uma feinha agora que aos 40 não é bom nem pensar como ela vai estar.

E como projeção, de conhecimento universal, para você ter noção de como sua namorada ficará mais velha, basta ver a mãe dela que poderá dar uma boa idéia. Se sua namorada for magrinha, mas a mãe for super gorda.... xiiii já é bom ficar “ligado”. Se for uma coroa nos trinques, com a pele super lisinha, pode ficar relaxado que o futuro de sua amada está, nesse aspecto, garantidíssimo.

9. INTELIGENTE

Sem dúvida alguma é a característica mais valorizada por mim.

Se eu fosse ser entrevistado por Xuxa, por exemplo, bem naquele estilo de perguntas e respostas rápidas, e uma das perguntas fosse a clássica: “Qual a principal parte do corpo da mulher pra você?

Sem titubear, sem hesitar um segundo: “o cérebro!!”

Realmente, essa valorização é tão presente em mim ao ponto de considerar a inteligência feminina o melhor de todos os viagras. Mais afrodisíaco, do que uma tarde na praia no sol comendo ostras e amendoim. Em contrapartida não consigo nem por pouco tempo manter um relacionamento em que não considere a mulher muito inteligente.

Decerto, não há nada mais prazeroso do que ter uma namorada que saiba conversar sobre livros e cinema, saiba dos autores e atores, diretores e roteiros. Saiba interpretar bem um filme, que vibra com eles. Realmente gosta de FILMES, e não apenas daquelas comédias românticas bem melosas. Nada contra, até porque também gosto, mas gostar APENAS desse tipo: é pau. Sem falar que dá pra conhecer muito uma pessoa pelos filmes que mais marcaram ela.

Além disso, mulher inteligente não é alienada com os acontecimentos cotidianos, e que por ter uma cultura vasta faz você viajar enquanto fala, pelos pensamentos dela, pelos locais que ela já conheceu, pelas experiências que ela já teve. Você pode passar horas em conversas sobre desde assuntos sérios dos mais diversos ou até os mais banais do cotidiano. É o tipo de pessoa que faz você se auto-questionar, faz você rever suas próprias convicções, faz você refletir, e o resultado disso tudo é que você acaba crescendo, se tornando uma pessoa melhor.

Não há nada mais desestimulante do que estar ao lado de alguém que não lhe acrescenta nada. Cujas conversas não são interessantes, são enfadonhas, monótonas, previsiveis. Tem coisa mais broxante do que estar com alguém que antes de iniciar um diálogo qualquer do cotidiano você, antes de começá-lo, já sabe como ele vai ser do começo ao fim?

Pode ser até que saiba conversar sobre esportes e política, mas decididamente é muito difícil uma mulher gostar desses temas, quanto mais conhecê-los a fundo. Esses são temas mais reservados para os amigos mesmo numa mesa de bar.

Cumpre destacar ainda que também merece ser valorizada outro tipo de inteligência: a necessária para o sucesso de um relacionamento. Nesse aspecto cabe a mulher, o que apesar de óbvio é até incomum, perceber o quanto ser extremamente ciumenta e possessiva dificulta um relacionamento saudável. Além disso, ao invés de querer ficar competindo pra saber quem tem mais razão nas questões do cotidiano, perceber que ficar constantemente discutindo jamais é bom. Apesar disso ser óbvio, não é incomum constatar que algumas meninas acreditam, por alguma lógica doentia, que viver discutindo com o namorado é uma forma de mantê-lo por perto.

Mulher inteligente é aquela que torce pelo sucesso do parceiro, e o apóia no que for preciso para fazê-lo crescer. Assim como cabe ao homem também esse apoio para a mulher se sentir segurança para conquistar seus objetivos. E é assim que os dois crescem como casal. A isso chama-se cumplicidade.



Enfim, O ATRIBUTO....

10.CONVERSA

O décimo e primordial atributo. Decerto, não há forma melhor para avaliar se sua namorada pode vir a ser a mulher que você sempre buscou do que pela analise da qualidade da conversa com ela.

Independente de quem você seja, da sua profissão, religião, crenças, raça ou nível social. A mulher que você tem que casar não é a mais rica, ou que tem a bunda maior, mas aquela cuja conversa de tão agradável e prazerosa faz você nem sentir o tempo passar. Aquela em que você poderia sair A SÓS pra uma balada, por exemplo, e mesmo assim ser agradabilíssimo!

É, então, o atributo mais importante por ser o mais fidedigno e também por essa universalidade. Serve para qualquer pessoa.

Lembrem-se estamos falando da provável pessoa que você pretende passar o resto da vida ao lado. Imagine como será se a conversa não for lá essas coisas. Com o tempo vocês se tornarão aquele casal de velhos que ficam num restaurante lado a lado e não trocam nenhuma palavra o almoço inteiro. Com certeza, você já presenciou casal assim. E quando encontrar algum novamente perceba outro detalhe: o olhar de cada um! Vejam como um relacionamento onde a conversa não é boa o que cronicamente proporciona: amargura e infelicidade refletida nos olhares!

De tão importante, é o detalhe mais essencial. Há algumas formas indiretas de perceber essa deficiência coloquial. Alguns exemplos. Se ao lado da amada sempre existir aquela sensação subliminar meio estranha de que falta alguma coisa, ou, numa festa, você ficar torcendo para que seus amigos se aproximem para poder não só ter conversas diferentes, como ter uma gostosa sensação de uma conversa agradável. Ademais, se é visível que você não gosta tanto de sair a sós com ela, sempre dando um jeito de chamar outro casal de amigos. Se alguns desses exemplos estiver incontestavelmente presente não há como ter evidencia mais clara de que vocês não darão certo. Indubitavelmente! Ela jamais lhe fará essencialmente feliz. Mesmo que ela seja inteligentíssima, tenha uma família ótima, ou que você adore o cheiro, o rabo-de-cavalo e as coxas dela. Por isso, ao perceber essa dificuldade na conversa entre vocês: corra. Corra pra bem longe, e só pare de correr quando estiver numa distância segura. Se afaste o quanto antes, ou então espere o tempo desgastar num calvário paulatino o relacionamento de vocês até quando conviver com ela passe a ser insuportável. Mas aí você terá perdido preciosos meses em que poderia ou ter conhecido outra pessoa, ou mesmo ter tido experiências menos estressantes, e menos cabelos brancos.

E agora que você já sabe reconhecer a pessoa certa...

Vou lhe ensinar, agora, as táticas necessárias infalíveis para conseguir namorar tal pessoa. Você perceberá, se ainda não sabe, que deixar alguém interessado por você é, muitas vezes, uma verdadeira arte. Requer planejamento, traçar estratégias de abordagens, tudo meticulosamente calculado, e de modo disfarçadamente natural ao ser concretizado. Até porque de nada adianta reconhecer a tal pessoa que você tanto procurou, se não souber deixar ela interessada por você...

.... to be continued.

segunda-feira, 14 de abril de 2008

Menos de 24 horas



(história baseada em fatos reais, alguns nomes abaixo foram mudados)

Essa é a história de Itamar. Uma história de uma pessoa qualquer, contudo com um final bem incomum, mas que poderia ter sido a sua, ou mesmo a minha história. E é justamente aí onde está o perigo.

Bem, Itamar no dia 10 de abril estava com exatos 32 anos. Pai de dois filhos, Bruno e Raquel, de 7 e 4 anos, respectivamente. Raquel, por sinal, tem lindos olhos azuis e marcantes cabelos cacheados, os quais puxou da mãe. Itamar é engenheiro civil, adora chocolate amargo, tem mania pelo número 5, torcedor do Náutico fanático, ou como ele mesmo gostava de dizer: fanáutico; e estava casado com Tereza, sua primeira namorada, com quem já estava junto há 15 anos: 8 anos de casado, e 7 de namoro prévio. Tinham um casamento praticamente perfeito, pois quase nunca brigavam, e adoravam tomar vinho a sós, as sextas à noite. Sempre o Reservado da ConchayToro, com a uva carmenère. Nessas especiais noites, Itamar costumava falar (propositadamente) um monte de besteiras só pra ouvir a risada gostosa de Tereza ( era viciado nela), e ela adorava passar horas e horas conversando com Itamar: adorava o jeito especial que ele tinha de fazê-la sorrir. E provavelmente era isso, a forma como adoravam conversar um com o outro, a base do sucesso dos dois como casal.

Tudo ia bem, muito bem aliás.... até o sol nascer no fatídico 10 de abril de 2008. Fatídica quinta-feira. Engraçado como alguns dias simplesmente não deveriam existir.

O dia 10 de abril começou com Itamar todo amostrado no café-da-manhã, estava imaginando a reação de seus colegas de trabalho quando vissem seu novo brinquedinho. Cliente da Claro há 5 anos, e com o ultimo plano expirado há alguns dias, ele fora no dia anterior a loja da Claro no Shopping Recife e saíra de lá com um novo celular cheio de “praquêisso?” e um modem pra conectar a internet em seu laptop onde quer que ele estivesse. Algumas palavras atrás onde há “novo brinquedinho”, leia, agora - modem banda larga 3G da Claro. E ao invés de “onde quer que ele estivesse”, pode ler agora “no trabalho de Itamar nesta quinta pela manhã”.

O dia que se iniciou com um belo céu azul, foi uma tormenta para Itamar. Um pouco antes do almoço ele bateu seu carro (se distraiu e bateu na traseira de uma Ecosport preta que estava parada num sinal. Pior: o carro dele amassou todo, e a Eco nem um tico), ademais se esqueceu de pagar uma parcela do seu imposto de renda (estava no ultimo dia do vencimento, e Itamar toda vez xingava por que não dispunham de débito automático; mas ele prometeu que iria pagar sem falta na sexta), e, pra completar, a demonstração da internet móvel para os amigos havia sido um fiasco, o modem só apresentou umas taxas pífias de conexão, 50-90kbps, nem perto do 1Mbps do contrato. Tem dia que é assim mesmo, parece dar tudo errado. Isso por que ele ainda nem sabia o quanto ainda iria piorar.

Ao chegar em a casa, à noite, ele resolveu ligar pra Claro. Estava com medo de ter feito um péssimo negócio ao assinar contrato com o modem por um ano, e queria alguma explicação. Seu dia que já estava irritante, em nada melhorou com os 28 minutos escutando Freddie Mercury cantando incontáveis vezes o refrão “One dream, one soul... It's a kind of magic... The bell that rings inside your mind... It's a kind of magic...”, a musiquinha-tema da nova campanha 3G da Claro que fica tocando enquanto se espera pelo atendente. No começo é até agradável, mas depois de alguns minutos se torna irritante; e quase beirando aos 30 minutos de espera, passa a ficar insuportável. Impaciente, resolveu desligar antes de ser atendido, e antes de transferir toda sua raiva pra seu ídolo do Queen.

Saiu do quarto e se dirigiu a sala. Estava com dor de cabeça, a cabeça estava pesada. Sabia que apenas uma coisa no mundo inteiro diminuiria àquela intensa irritação causada por dia tão ingrato. Foi justamente a coisa que ele encontrou em cima do sofá vestida com uma roupa casual assistindo a novela Beleza Pura. Ele achava fantástico como conseguia achá-la estonteantemente linda, mesmo naquela roupa simples, com sandálias havaianas, sem maquiagem, sem brincos e com as pernas levemente precisando depilar.

Mal sabia ele que aquela cena de sua mulher singelamente bela no sofá seria uma das ultimas percepções que seus sentidos captariam. E se soubesse disso, garanto-vos, teria ele olhado com um pouco mais de atenção, mas como já aprendemos: nunca dá pra saber a última vez que veremos alguém. De fato, quando Itamar se dirigia ao sofá, sua mulher compenetrada na novela, sem mal tirar os olhos da Tv (era justamente o momento que Guilherme - Edson Celulari - se assustava quando Raul - Leopoldo Pacheco - contava que Norma - Carolina Ferraz - estaria pensando que eles estavam namorando) e sem falar nada, pediu com um gesto de mão e um rápido olhar pra Itamar sentar-se ao lado dela. No momento em que Itamar estava a uns dois passos dela, sentiu uma abrupta e insuportável dor de cabeça e logo a seguir, ele, quando já estava a alguns centímetros de tocar o solo desmaiado já não enxergava mais nada.

Exatamente no instante que o rosto de Itamar tocou no chão de seu apartamento, Bruninho, no quarto ao lado, acabava de marcar o gol da vitória do Nautico sobre o Barcelona em Fifa 2007 de seu Playstation 2, Raquelzinha roncando dormia, e eu, a alguns kms dali, apertava o alarme do carro no chaveiro pra ir embora do Hospital da Restauração (HR), após um dia intenso de trabalho. Eu estava saindo justamente do hospital para onde levariam Itamar logo mais.

....

É agora que eu entro na história. É agora que minha história cruza brevemente com a de Itamar, Tereza e Mike. Sim, só agora percebi que havia esquecido o excêntrico Mike (fala-se “maique”).

Eu, como todos aqui devem saber, sou médico formado desde 2005, e atualmente estou fazendo residência em cirurgia geral há um pouco mais de um mês. Meu rodízio atual (todo mês é um rodízio diferente) é na emergência do HR, de segunda a sexta, e nesta ultima sexta a história de Itamar se cruzou com a minha.

Nosso encontro. Minha R2 chegou pra mim e falou: “Gildo aquele paciente ali entubado (o Itamar) está precisando de um acesso venoso central.”. Ao que prontamente me dirigi a ele, já que residente de cirurgia no início do curso fica ávido por realizar procedimentos, para ganhar prática. Ao me aproximar, encontrei-o já entubado, o respirador apitando como de praxe, e uma plaquinha presa ao leito onde estava escrito “AVCH, NCR”. Significava: Acidente Vascular Cerebral Hemorrágico e Neurocirurgia. Na hora, pensei que só teria contato com ele naquele procedimento, já que o caso dele era pra ser acompanhado pelos neurocirurgiões. Nem sabia o quanto estava enganado. Enfim, alheio ao que me aguardava dei início ao procedimento. Após fixar o cateter venoso central na veia jugular interna direita de Itamar, fui à mesa para solicitar um Raio X de controle para saber se o cateter estava na posição correta e se não havia surgido nenhuma complicação do procedimento. Foi quando descobri pela primeira vez o nome de meu paciente. Pronto. Procedimento realizado com aparente sucesso, Raio X solicitado, era só aguardar o maqueiro e o neurocirurgião para avaliá-lo. Nossa história teria terminado aí se por algumas peculiaridades do HR (no caso a falta de maqueiros) eu não fosse compelido a ajudar a levar Itamar ao Raio X e à Tomografia.

A Unidade de Trauma do HR, onde eu e Itamar nos encontrávamos, muitas vezes parece como parte de algum filme, tipo “Jogos Mortais”, já que há amontoados de macas com pacientes graves ou gravíssimos em cima, alguns vomitando sangue no chão, outros totalmente desfigurados, outros entubados e a maioria gemendo alto, o que conferia àquele ambiente um mal-estar peculiar e meio angustiante. E por mais que com o tempo você termine se acostumando um pouco, é impossível não se manter sempre incomodado. Como o maqueiro estava demorando a chegar resolvi eu mesmo empurrar sua maca para fazer os exames. Ao sair da Unidade de Trauma e entrar nos corredores do HR, cujo amontoamento de pacientes não é muito diferente, percebo uma mulher de um pouco mais de 1,6m, corpo atlético, olhos bem azuis, se aproximando. Pelo olhar apreensivo que me fitava, já sabia o que ela iria perguntar: “Eu sou a esposa dele. Como ele está Doutor?”. Sem saber muito o que dizer, tentei não sair do óbvio: “Nós estamos levando ele pra fazer uma tomografia e só então poder saber a real gravidade do caso”, quando falava percebi que ela segurava um bonequinho do filme Monstros S.A., um verdinho que tem umas pernas bem finas e compridas e um corpo redondo praticamente todo ocupado por um olho único e bem grande. Sem ter mais o que falar, por enquanto, voltei a minha jornada de empurrar a maca até o setor de Radiologia. Quando me virei e comecei a andar, ouvir sua esposa me chamar mais uma vez por trás de meu ombro: “Doutor Gildo, doutor Gildo!” (ela já devia ter lido meu nome no jaleco)

-Será que o senhor poderia levar esse bonequinho junto com ele? Foi nossa filha que pediu, ela disse que é pra deixar o pai dela bom logo. O nome dele é Mike.

-“É, eu sei. Tenho sobrinhos e já assisti com eles Monstro S.A também” – pensei. Apesar de talvez não ser muito oportuno, concordei: “Não querida, não tem problema nenhum, eu levo o Mike junto com ele

E segundos depois estava empurrando a maca, um doutorando ambusando (ajudando o paciente a respirar com um balão – o AMBU – que necessita que fiquemos o apertando. Daí o gerúndio neologístico: ambusando), e o um tanto grotesco Mike (mais cheio de significado) em cima do peito do Itamar. Àquela altura, toda ajuda era bem-vinda.

Após posicionar Itamar na mesa do tomógrafo, me dirigi ao técnico que estava numa salinha ao lado, protegida contra as radiações ionizantes, observando o exame progredindo na tela do computador. Estava curioso pra saber se o exame acusaria alguma coisa. Curioso como sempre sou, e agora um pouco mais em especial pelo bonequinho que levei comigo no bolso do meu jaleco à sala do técnico.

Quando o exame estava sendo realizado, e as imagens foram aparecendo paulatinamente na tela do computador, uma palavra foi ouvida na sala e que dimensionava muito bem a gravidade daquele exame:

-Caralho!



Realmente era difícil pensar em outra palavra para representar bem aquele importante sangramento (a parte branca dentro do crânio, setas azuis) que o paciente apresentava. E pela extensão e pela localização, na hora, só consegui pensar na temida Aneurisma de Artéria Cerebral Média, que no caso dele já havia rompido....


Saí da salinha, me dirigi ao Itamar no tomógrafo. Colocamo-lo na outra maca. Fiquei olhando para ele fixamente por algum tempo, a imagem no computador há pouco reverberava na minha mente...



Foi quando algo me veio à tona. Fui até o doutorando que estava novamente ambusando Itamar, o mandei parar e desconectei o AMBU do tubo traqueal. Sem o auxílio do AMBU, a respiração ficaria a cargo exclusivo dos músculos intercostais e do diafragama do ITAMAR. Todos na sala agora torciamos que ele esboçasse alguma respiração por conta própria. Com os olhos fixos nele, todos passamos a observá-lo. Esperamos um minuto, dois minutos, e NADA aconteceu: apnéia total. Mandei o doutorando voltar a ambusá-lo, e fui olhar suas pupilas com um foco luminoso. Anisocóricas e sem fotoreagir (ou seja, uma maior que a outra, e sem contrair sob a luz forte). Retrai a manga de meu jaleco, olhei meu relógio, marcava exatamente 11:22, impressionante, não fazia nem 16 horas depois da queda de Itamar em sua casa, e já poderíamos considerá-lo como em MORTE ENCEFÁLICA. Não havia mais perspectivas de cura para ele, nada que se pudesse fazer.... e o Mike, no meu bolso, não parava de olhar pra mim.

Fiquei totalmente abalado com aquela situação, e infelizmente mais uma dentre tantas que iria passar naquele dia. Ser médico não é nada fácil mesmo. Um rapaz super novo, trinta e poucos anos, sem doenças prévias, e... morto. E de forma tão rápida e inesperada. Restava agora enfrentar a difícil realidade e voltar com o paciente à Unidade de Trauma.

No entanto, a volta não seria tão fácil assim. Quando estava a uns 20 metros da Unidade de Trauma pude ver de relance que sua esposa (era Teresa) já me aguardava aflita. Apesar da face tensa, era notável no fundo de seus olhos uma luz de esperança, e na mão esquerda, agora, havia um terço entre seus dedos. Por alguns instantes desejei não encontrá-la, não ter a dolorosa tarefa de apagar aquela luz de seus olhos, não ter que sentir através de sua alma a dor pungente de quem perde um ente tão próximo. E, sobretudo, quando essa pessoa que se vai é muito mais que um ente próximo, mas parte da própria vida da pessoa que fica (e as melhores partes)? E quando é ao mesmo tempo o melhor amigo, o melhor marido, o melhor genro, o melhor cunhado, o melhor amante, o melhor pai dos filhos? Como dizer para o Bruninho que com 7 anos já entendia tudo? E nos braços de quem agora a Raquelzinha iria pegar no sono?

Sem dúvida, é o momento mais difícil da minha profissão.

-E aí?! – Tereza ao ir ao meu encontro.

Nunca pensei que uma pergunta com apenas três letras pudesse ser tão difícil de responder. Porém, inevitavelmente o meu semblante entristecido já respondia tudo. Ela pareceu entender tudo. Porém, repetiu a pergunta exigindo uma explicação. “Quero saber tudo”, retrucou ela.

Passamos praticamente 10 minutos conversando. Difíceis 10 minutos; 10 minutos que não se esquece facilmente. Ela me contou muito sobre a vida dos dois: quando se conheceram, onde passaram a lua-de-mel, a forma como era uma pessoa exemplar, um pai exemplar, etc. A risada de Tereza que o Itamar tanto gostava eu não pude ouvir, em contrapartida o grunhido chocante do seu choro incontido vai ser difícil de esquecer, e vira e mexe ainda o escuto inevitavelmente, mesmo já tendo passado alguns dias daquele marcante encontro.

No meio daquele desespero, Tereza entre lágrimas e soluços solicitou um último favor a mim: “quero que você me ajude a doar todos os órgãos dele, era isso que ele desejava”. Diante do inconfortável, do incompreensível, do inaceitável, a forte Tereza desejava transfigurar àquele momento de pura dor em algo positivo para outras pessoas que ela nem conhecia, que ela nem conheceria. Na verdade, para no mínimo 6 pessoas, no caso de Recife, já que dispomos aqui de suporte para transplante de Fígado (1), de rins (2), de coração (1) e de córneas (2).

Ao voltar à unidade de trauma dei início ao protocolo para a doação dos órgãos de Itamar, agora, meu paciente. Trata-se de dois exames clínicos, onde se vai checar alguns reflexos (como os da pupila, o córneopalpebral e o da respiração), realizado por dois médicos diferentes em um espaço de 6 horas entre os exames. Além de ser obrigatório um exame para avaliar o funcionamento cerebral, no caso do HR, o encefalograma e outros laboratoriais para avaliar a qualidade dos órgãos.

Tudo ficou pronto às 18:40 do dia 11 de abril de 2008. Menos de 24 horas de Itamar pela última vez olhar com ternura para sua mulher, sentada no sofá. Antes ele era um marido exemplar, cheio de vigor físico, sem nunca ter tido nenhuma doença prévia, extremamente novo; agora, menos de 24 horas depois, estava ele ali, entubado, com os órgãos todos prontos para serem doados. Menos de 24 horas...

E o Mike, em cima dele, já não estava mais olhando pra mim....

Essa foi a história de Itamar, mas que poderia ter sido a sua, ou mesmo a minha história. E é justamente aí onde está o perigo.

E você já pensou como vão ser as suas próximas 24horas?

quarta-feira, 20 de fevereiro de 2008

Do cheiro aos APRENDIZADOS E AO....



Era uma terça-feira. Ensolarada terça-feira. Por volta das três e trinta da tarde. Calorenta três e trinta. Hospital Santa Joana, Bairro do Derby, Recife, Pernambuco. Sangrava e chorava sem parar num misto de dor, medo, tristeza e perplexidade....

... Conforme você já deve ter lido na primeira parte deste texto (http://carpediemismo.blogspot.com/2007/09/do-cheiro-aos-parte-i.html), o relato acima, ao contrário do que a princípio poderia sugerir, referia-se, na verdade, a desprazível experiência de meu nascimento, 28 anos atrás. Bem, desagradável, decerto, não aos olhos dos familiares, mas apenas aos meus olhos como recém-nascido, porquanto, como mostrei, não é mesmo nada fácil a passagem por canal tão angustiantemente estreito.

De qualquer forma, minha hora tinha chegado. Havia nascido. E o engraçado que desde meus primeiros momentos começou a me acompanhar um sempre presente (ainda hoje) amiguinho meu: o número 3. Vejam bem: nasci numa TERÇA-feira, dia TRÊS de julho, às TRES E TRINTA da tarde (não me espantaria se descobrisse ter nascido exatamente às 3:33, e a enfermeira por mera comodidade ter arredondado para as 3:30.), pesando 3300 gramas (3333?), e medindo 53 cm de comprimento. Sem falar que foi justamente no exato dia que minha mãe completava 39 semanas de gestação, no TERCEIRO andar de um hospital que havia inaugurado precisamente há 33 dias (Hospital Santa Joana, 31 de maio de 1979).

Coincidências?! Ou uma provável obsessão paranóica como em Walter (Jim Carrey) e sua obsessão de Fingerling pelo número 23, no filme homônimo? Vou deixar isso pra lá, já que o propósito deste texto não é esse mesmo; mas o que é afinal?

O que – VOCÊ – teria para ensinar, hoje, a seus filhos??

Bem. Tudo começou com uma de minhas incontáveis curiosidades (realmente pareço uma eterna criança de 7 anos: por quê? Por quê?), e como gosto de aproveitar a vida dia após dia, resolvi contar o número exato de dias meus já vividos. E pra minha surpresa havia superado a estrepitosa marca dos 10mil dias. E você? Sabe quantos já viveu?

Por esse motivo, a foto com os símbolos XCCXCIII na primeira parte deste texto: são algarismos romanos e equivalem a 10.293 dias de existência, desde meu nascimento (desde aquele CHEIRO da minha mãe) até o dia 7 de setembro: dia em que a publiquei. Pelo mesmo motivo os símbolos XCDLIX da foto acima. Mas para uma pessoa que se propõe, como eu, um aproveitamento intenso da vida em cada um dos seus dias não surpreende tanto assim saber quantos dias já viveu.

Você a essa altura já deve ter arrastado a barra de rolagem e percebido assustado como esse texto é grande. Caso não tenha feito isso, é provável que faça agora após eu ter comentado. Porém, prometo que vou tentar não tornar o restante tão enfadonho, para, quem sabe, você leia-o até o final sem perceber.

Vamos lá....

O que eu aprendi nessa vida? Ou o que – EU – ensinaria aos meus filhos?

Bem, poderia começar falando sobre um monte de coisas banais. Como, por exemplo, a comer alface sem cortá-la (tem que fazer uma trouxinha), senão fere a etiqueta, segundo a “imprescindível” Gloria Kalil; a não tirar catota (meleca) na frente dos outros; que não devemos nunca ser sinceros ao ressaltar um defeito de alguém, sobretudo com as mulheres; que ao ver alguém espirrando, não se pode falar “saúde” (novamente Gloria Kalil); que papel higiênico não entope privada se for bem dobradinho, sem falar no nojo de colocá-lo no baldinho. Ensinaria, ainda, a quando levar bananas numa sacola, colocar as maduras por cima; que numa mesa temos que ter cuidado com os cotovelos: nem em cima da mesa, nem no ar muito lateralizados para não invadir o espaço alheio; que as portas públicas são todas imundas, tanto as dos bancos, dos selects da vida, ou dos cinemas; a melhor forma, então, é abri-las quando possível empurrando com os pés. Exagero? É nada. Vocês têm que entender que os homens, na sua maioria, são todos uns imundinhos, eles vão ao banheiro e não lavam as mãos direito, ou seja, naquelas portas públicas têm, por tabela, uma quantidade incalculável de gorduras de “pintos” nelas. E o pior: uma estatística fica contra você – em média, pegamos no próprio rosto, sem perceber, 2 vezes/hora – ou seja, pegamos na porta imunda e depois levaremos àquelas gorduras íntimas ao próprio rosto. Argh!

Poderia, ainda, explicar as diferenças entre o burro, o asno e o jumento; ou entre uma fazenda, uma chácara e um sítio. Ou explicar sobre constelações, ou sobre por que a semana tem sete dias, e o motivo do nome de cada dia da semana. Ou, ainda, explicar por que os passarinhos não levam choque nos fios de alta tensão, como também para que serve aquelas bolinhas laranjas neles....

Como falei, poderia começar falando sobre inúmeras coisas banais, mas não vou fazê-lo. Acho que vou começar falando um dos ensinamentos mais valorosos que aprendi na vida inteira: o modo como aprendi a mastigar de boca fechada!!

Na verdade, não é tão notável o ensinamento em si, mas o método como aprendi, sim. Mudou minha vida completamente, porque através dele eu pude –e ainda posso – mudar a mim mesmo. Quem me ensinou? Minha irmã Karina, quando eu tinha uns sete anos. Naquela época talvez ela nem soubesse a grandiosidade da sua lição. Veja como aconteceu (relatarei o nosso diálogo na íntegra):

– Júnior (naquela época esse era meu nome), você está comendo com a boca aberta e isso é muito feio.
– Eita! Foi mal, não tinha nem percebido que estava mastigando assim.
– Faça o seguinte: toda vez que você for comer fique se lembrando em manter sempre a boca fechada, que assim você vai ficar mastigando corretamente.
– Oxe, mas toda vez eu vou ter que ficar me lembrando em comer de boca fechada é?
– Ai que está o segredo. No início você vai ter que ficar lembrando, mas com o tempo, você vai mastigar só de boca fechada e nem vai mais perceber. Fica automatizado.


Ingenuamente simples, mas muito genial. Já que você pode abranger esse método para inúmeras outras coisas da sua vida.

Por exemplo, quando era mais novo vivia levando topadas com freqüência. Vira e mexe era uma topadinha. Foi quando percebi que tinha um jeito de andar que favorecia isso (um modo de pisar errado) e passei a tentar mudá-lo por causa disso. Como? Pelo mesmo método de Karina: no começo, conscientemente, fazia o andar que eu queria (pisando sempre pelo calcanhar) e com o passar do tempo já estava andando assim inconscientemente, como ando até hoje. Outro exemplo, quando estava no início da faculdade comecei a perceber que um amigo meu, Bacelar, tratava as pessoas diferentemente de mim: ele sempre era mais educado, mais afável e mais atencioso; e em retribuição as pessoas eram também mais carinhosas com ele, do que quando se dirigiam a mim. Diante disso, passei a desejar tratamento semelhante, e comecei a tratar as pessoas com mais educação e carinho. Mais uma vez pelo método de Karina: no início conscientemente, e inconscientemente a seguir. Hoje, por exemplo, eu já as trato assim sem perceber, esse tratar diferenciado passou, inclusive, a já fazer parte de minha própria personalidade... mas, como falei, nem sempre foi assim: eu precisei mudar meu jeito, e uma forma eficaz de você mudar qualquer característica sua é através daquele método.

Recentemente, último exemplo, eu já abusado de ficar perdendo os bilhetes dos estacionamentos dos shoppings, comecei a me habituar a colocá-los sempre no mesmo lugar (meu bolso esquerdo), e agora já estou na fase em que os guardo por lá sem perceber. Realmente, esse método pode ser usado em inúmeras situações distintas: desde as mais banais do cotidiano, até na mudança de suas próprias características mais importantes, como sua ética, seus valores.

Poderia chamá-lo de método de Karina, se já não fosse reconhecidamente um ensinamento Aristotélico, o qual está presente no livro Ética a Nicômaco: “As qualidades morais do ser humano precisam ser praticadas até tornaram-se um hábito”

Enfim, começa-se praticando forçadamente até depois estar agindo tão naturalmente quanto o próprio ato de respirar.

E essa seria a primeira coisa importante que ensinaria ao meu filho. Após 10mil dias, é de se esperar que muitas outras coisas, ainda, tenha a ensiná-lo. De fato:

Sobre relacionamentos

Que infelizmente mesmo sem querer você vai magoar e vai se magoar com alguém de que você gosta muito. E que amizades de anos, antes aparentemente indestrutíveis, do dia pra noite podem se acabar; amigos são importantíssimos, mas eles vêm e vão.

Que muitas vezes pra se ter MAIS em um relacionamento você precisa fazer MENOS. Está gostando da namorada? Está com vontade de falar com ela o tempo todo? Se você se render ao impulso instintivo de ligar pra ela o tempo todo, vai acabar repelindo-a, é necessário dar um pouco MENOS de atenção, ligar um pouco MENOS pra ela. A lógica é meio ilógica, concordo, mas com o tempo aprendemos que para mantermos os relacionamentos é assim. Senão, corre-se o risco, de ao ficar no “grude”, acabar nem dando tempo da saudade dela por você começar a surgir.

Sobre Dirigir

Dirigir é um tédio. Não dá pra dirigir coladinho na traseira do carro da frente; não dá pra furar sinal vermelho quando estiver com pressa; não dá pra passar por algum cruzamento e não olhar pra os dois lados. Mas nem umzinho? Não. Ademais, que passar a primeira marcha é um saco, sobretudo na intermitência dos engarrafamentos; que de madrugada todos os sinais são vermelhos; e que não adianta nada passar anos sendo quase perfeito e em alguns segundos por um simples descuido colocar toda sua reputação a perder, até porque, às vezes, perde-se muito mais do que uma simples reputação.

Que o simples “entrar no acostamento” das estradas com o carro acima de 60km/h é perigosíssimo: o pneu pode furar (pai de Rommel), o tanque de combustível pode estourar (no meu caso, hehehe), ou até destruir o tão falado carter, que só Ele sabe do que se trata.

O bom cirurgião, por exemplo, tem que saber duas coisas que o ato de dirigir diretamente ensina, a saber: na dúvida, não ultrapasse; e não adianta ser perfeito mil vezes, se você se descuidou um segundo e errou feio uma vez.

Aos 15 anos, no início de meu aprendizado automobilístico, quase bati uma vez porque fui ajeitar o som do carro com este em movimento. Coloquei toda a minha atenção focada para o problema do som (a mascara – frente do som – não queria encaixar), quando voltei minha atenção para a rua, já estava numa iminência de uma batida. Meu coração foi a mil. Ainda bem deu tempo de consertar meu erro, mas por alguns segundos ainda fiquei sentido aquele frio que percorre o corpo inteiro sempre nas situações mais desesperadoras. O engraçado foi que depois desse susto nunca mais cometi o mesmo erro: sempre que preciso fazer alguma outra coisa com o carro em movimento, deixo um olho na estrada e o outro no porta-luvas, no som, seja onde for. E o mais estranho que ainda hoje, 13 anos após aquele susto, quando preciso tirar minha visão da rua pra ajeitar qualquer coisa no carro me lembro daquele momento. Sempre.

Quantos acidentes eu não evitei por conta daquele susto?

Daí, indiretamente, terminei aprendendo algo que vou ensinar ao meu filho: como aprendemos muito com nossos próprios erros! Muito mais até do que com os nossos acertos. Mas será que precisamos experimentar todas as formas possíveis de erros para aprendermos tudo?

Sobre como aprender com os erros alheios

A maioria das pessoas infelizmente aprende com mais freqüência quando erram elas próprias. No entanto, considero muito mais inteligente você aprender com os erros alheios. Como? Tentando vivenciá-los mentalmente como se fossem seus próprios. Um exemplo, há dois anos que vivia com freqüência viajando pelas BRs, e sempre ouvi histórias de pessoas que bateram o carro, e até morreram, na traseira de algum caminhão. Por isso, sempre procuro manter uma distancia extremamente segura, como se eu já tivesse passado pela experiência desagradável de já ter batido, mas sem nunca ter acontecido.

Aprendi que o mais inteligente é de fato saber evitar o acidente... porque muita gente tenta apenas a aprender o modo certo de dirigir, e quando ela está certa, torna-se um pouco incauta. Está dentro da lei e se despreocupa. Por exemplo, vai passar um cruzamento e só por estar com preferencial não quer nem saber: como se ao bater, o fato de a preferencial ter sido sua diminuísse o estresse da batida. .... e os dias sem carro? A dor de cabeça de voltar a depender de alguém? E se o culpado não pagar o seguro?

Um amigo meu, voltava da Fashion (do recife antigo) a noite pela Av. Domingos Ferreira, estava no banco de trás. O carro dele passou por um dos cruzamentos, e como o sinal estava verde, o motorista nem se preocupou em diminuir. Outro motorista, vindo da rua perpendicular passou com o sinal vermelho também em alta velocidade. O acidente foi inevitável, só meu amigo morreu. Mas eu pergunto: o acidente era inevitável mesmo???? O que adianta estar dentro da lei (por ter atravessado quando o sinal estava verde) se do acidente resultou a morte de pessoa tão querida, se motorista “certo” poderia ter tido uma postura mais cautelosa?

Por isso, eu considero ser muito mais inteligente do que está certo no transito é saber ter a inteligência em evitar os acidentes....

Sobre a felicidade e a inteligência

Que não é muito inteligente criar muito expectativas para as coisas do cotidiano, uma vez que muitas vezes deixamos de valorizar algumas coisas justamente por isso. Decerto, com o tempo percebe-se que felicidade muitas vezes está vinculada à superação de expectativa.

Um exemplo, aqui em Recife, existem algumas churrascarias, citarei duas: Fogo na Brasa, uma mediana; e o Boi Preto, uma das melhores. Fui a primeira sem nenhuma expectativa e me surpreendi com a qualidade do serviço, terminei achando ótimo. E quando eu vou ao Boi Preto é porque já desejo esperar tudo do melhor, e às vezes posso nem achar assim tão maravilhoso, só porque me descontentei com alguma coisinha. Ou seja, só pela questão da superação de expectativa posso terminar achando ótimo o serviço mediano do Fogo na Brasa e nem tão bom o ótimo do Boi Preto.

Outra coisa fundamental, e que demora certo tempo pra se entender na essência é a verdadeira definição do que é ser inteligente. A meu ver não tem nada a ver com QI, com capacidade de memória, mas pela “... arte de tornar a vida mais agradável e feliz possível” nas palavras de Arthur Schopenhauer.

Enfim, é isso. Sabedoria pra mim é a difícil tarefa em tornar sua vida o mais agradável possível, encarando-a com leveza, aproveitando os seus momentos como se fossem os últimos... como se vivêssemos em despedida.

Sobre sua própria postura

Ensinaria que beber é um instrumento deveras socializante, mas é mister saber o ponto ideal, e que não há vantagem alguma em se passar desse ponto. Perde-se a festa, fica-se muitas vezes desagradável, inconveniente, ou até impossibilitado de conversar com alguma paquerinha se for o caso; além de causar amnésia alcoólica no outro dia, e a indesejada ressaca.

Que é possível viver apenas só falando a verdade, a evitar o máximo o vício de ficar mentido (vicia mesmo, de repente a pessoa se vê mentindo em coisas que nem precisava). Ensinaria a ser verdadeiramente honesto, a prezar o verdadeiro e sincero caráter, e a praticá-lo diariamente, e não apenas quando tem alguém nos olhando, já que as pessoas quando não estão sendo observadas, mudam completamente, geralmente pra pior.

A não deixar de fazer alguma que vá se arrepender. Ainda me lembro bem o dia em que passei boa parte da noite numa boate querendo conversar com uma garota. Faltou coragem, “mas” eu quase fui lá umas quatro vezes. E ainda consigo sentir, hoje, mesmo mais de 10 anos após, o gosto amargo na garganta ao deitar naquela noite pela frustração de não ter ido. Um incômodo que prometi nunca mais iria querer sentir. Naquele dia aprendi que um fracasso por ter tentado é mais digno, conforta mais, do que a frustração por ter sucumbido ao medo do risco.

Que das pessoas é bom esperar o melhor, mas se preparar para o pior. Que as pessoas inerentemente são meio invejosas com o sucesso alheio, e regozijam-se com a desgraça dos outros. Você pode fazer certo alguma coisa mil vezes e ninguém vai elogiar; mas faça errado uma vez que com certeza essa pessoa vai contar pra no mínimo outras três, e essas que nem presenciaram vão contar pra outras três e não raro, ainda, aumentando o fato ocorrido. Por isso, sempre é bom ter cautela quando se julgar as histórias contadas sobre outrem.

Tentaria ensinar que não se deve julgar ninguém pela aparência e a encarar todas as pessoas como iguais, independente de cor, condição social ou credos. É um ensinamento dos mais difíceis, sem dúvida; e, por isso, talvez fosse melhor ensiná-lo através de aulas práticas, onde eles aprenderiam ao me ver tratando com a mesma cordialidade, desde um milionário a um mendigo. Os filhos imitam os pais mesmo.

Ensinaria que saber falar com as pessoas é uma verdadeira arte. Já que uma linguagem corporal é muito mais importante do que as palavras em si. O modo como você fala uma coisa é fundamental. Até simples presentes tornam-se mais especiais, quando dados de modo diferente. Por exemplo, você pode dar um buquê de rosas pra sua namorada e ela vai se deliciar, até porque toda mulher gosta disso – mesmo que, às vezes, ela nem saiba nem o porquê (mas qualquer retardado pode fazer isso, não exige muito do encéfalo, é só ir à loja e comprar) – ou você pode conseguir a chave reserva do carro dela e enchê-lo com 50 rosas, mais alguns chocolates e um cartão bem escrito, que ela com certeza jamais vai esquecer. São as mesmas rosas, mas o resultado é totalmente diferente.

Que um erro grave é tanto se julgar mais do que se é quanto se estimar menos do que se merece.

Ensinaria também a cuidar diariamente da sua pele (cuidado com o sol diário), com sua coluna (olha a postura) e com os joelhos. Eles, sem dúvidas, são umas das principais fontes de desprazer na terceira idade.

.....

E quando eles soubessem de tudo isso acima passaria a tentar ensinar o mais importante

Sobre as coisas mais importantes

....

(to be continued)

sábado, 16 de fevereiro de 2008

TOP 21



O carnaval é a festa mais aguardada durante o ano por muitos de nós brasileiros. Como o meu caso, por exemplo. E todo brasileiro que gosta de carnaval tem um sonho em comum: conhecer o carnaval da Bahia. Novamente, meu caso. Confesso que, na verdade, apenas a partir do ano 2001 – quando foi proibido aparelhos de sons nas casas em Olinda – esse sonho passou a ser cada vez mais evidente em mim. E a partir do início deste ano todo o universo parecia estar conspirando a favor de realizá-lo – e da melhor forma possível: acompanhado dos melhores amigos, não conhecidos que se uniram por uma mera fatalidade para viajar, mas os meus melhores amigos do dia-a-dia.

A história já começava a ficar interessante justamente aí. Ademais, é engraçado perceber até aonde o ser humano é capaz de ir quando está mto focado em algum objetivo. Vejam bem, quando todos os membros de nossa trupe – composta por 6 amigos –confirmaram a viagem, todos entraram espontaneamente numa rigorosa preparação quase digna de uma olimpíada. Éramos 6 sedentários e/ou tabagistas inveterados que de repente estávamos realizando, cada um, uma alimentação balanceadíssima, kms de corrida diariamente na esteira e, para alguns, ainda, até algumas festas pré-carnavalescas foram poupadas; outros, inclusive, utilizaram até métodos questionáveis como uma amalucada mentalização chinesa em que se deveria visualizar toda sua gordura corporal se derretendo, e isso durante rigorosos 28 (?) dias seguidos....

Por tudo isso, inevitavelmente, uma expectativa e uma ansiedade cada vez maior foram aumentando. E isso é até pouco salutar porque poderia atrapalhar nosso discernimento sobre o carnaval, já que toda sensação de prazer está vinculada à superação de expectativa.... e quando se está com muita expectativa sobre alguma coisa, você pode acabar sub-valorizando algo que é inerentemente espetacular.

Enfim, chegara o dia. Domingo de carnaval. Fomos os 6 no mesmo vôo da Gol. A viagem inteira demorou apenas quatro dias e mesmo após tantas expectativas, não tenho dúvidas, conseguiu, ainda assim, superar a de todo mundo. Viajar com vários amigos sempre é muito bom, e por isso foram quatro dias inesquecíveis. O carnaval de lá realmente faz jus a fama que tem. É extremamente divertido, seguro e muito bem organizado. E por tudo isso passei a concordar com Bell do Chiclete: “não morra sem conhecer o carnaval da Bahia”.

E com o intuito de eternizar alguns dos momentos mais marcantes dessa viagem resolvi selecionar, após uma rigorosa avaliação, os 21 principais acontecimentos, sejam frases ou fatos marcantes. Para dessa forma poder dividir nossa alegria com o restante de nossos amigos que não puderam ir, como também dificultar o processo inexorável e deletério que o tempo tem em algumas preciosidades em nossa memória. Vamos a eles:

Antes é necessário esclarecer alguns termos que serão usados:

O verbo Malvadear – pode ser usado em várias situações. Quando a pessoa se perdeu, ou está dando uma atenção excessiva ao cabelo, ou está muito bêbado no fim de alguma festa (vide splintear)

O Verbo Splintear – Em alusão ao lendário rato Mestre Splinter das tartarugas ninjas. Que é utilizado quando a pessoa está num estado alcoólico muito avançado.


21

“Me dá essa moeda... me dá esse cigarro.... me dá um golinho... me dá esse chiclete.... me dá.... me dá...”

Dos cordeiros mais pidões do mundo, tirando todos do sério e, em especial, o representante mais estressado do nosso seleto Grupo dos Estressadinhos: Malvado, que por muito pouco não teve um piti frente à admiravél pedintaria obstinada e incansável dos referidos cordeiros (eles são brasileiros e não desistem nunca)

20

“Vamos começar a levar ré?”

O capitão do nosso time encorajando a todos a saírem daquela inércia coletiva abordativa. Com uma sobriedade alcoolizada nos fazendo perceber que era preferível levar "ré" de um monte de gatas a ficar com aquela postura estagnante, marasmática e quase melancólica.

19

“Ei, ei... eeeiii acooordaa!!. Me empresta 30 reais que o taxista está lá embaixo esperando”

Malvado malvadeando splinteado às 6h, acabara de voltar sozinho de taxi. Detalhe que o percurso de Ondina até o nosso hotel dava mais ou menos 13 reais, e o taxista se aproveitanto do precário estado de nosso amigo resolveu se aproveitar.

18

“Tenho o camarote Salvador da terça-feira por 850 reais.” Um cambista oferecendo a Leozinho o camarote, na frente da sede do camarote Salvador

“Tá ótimo (?). Vou querer” Leozinho, demonstrando todo o sua argúcia e habilidade como negociante, e sua capacidade espantosa de ser persuadido sem contestar. Detalhe que minutos depois Vilaça conseguiu o mesmo camarote por 700 reais.

17

“E aí, e aí, já pegou as negas”

Do vendedor de cervejas para Malvado após vê-lo splinteado tentado experimentar o tempero que uma baiana afrodescendente tem.

16

“Que porra é isso Leozinho?!!”

Gildo e Malvado em uníssono, imediatamente após entrarem no quarto 202, onde encontrava-se APENAS Leozinho e terem suas narinas invadidas por uma inhaca fecalóide e nauseante que exalava por todo quarto. Os dois correram desesperados para tentar se refugiar abrindo a janela (isso mesmo, ela estava fechada). E após uma tomada de ar puro, os dois se viram para trás, testas franzidas e olhos arregalados, denunciando o pânico de não acreditar como alguém poderia ainda estar vivo naquele quarto, e ao olharaem para Leozinho que repousava impassível na cama, este com um sorriso entre os lábios, falou: “Tranquilo. Hehehe”

P.S. Nosso amigo Leozinho pós-carnavalescamente tentou se justificar: "Eu não fui CUlpado por aquele cheiro fecalóide no quarto, mas o verdadeiro CU lpado ou foi Arabaiana ou Xico, que momentos antes de Gildo e Malvado terem entrando no quarto, haviam utilizado o banheiro com fins evacuativos". Mas Leozinho, retrucamos, isso não explica como você estava aguentando bem "tranquilo" aquela inhaca assustadora, ao que ele respondeu: "É que eu estava com nariz entupido, e nem tinha percebido a fetidez" Ahhhhhh, então, tá.....

15

- “Malvado me dê meu cinto!”

Gilton solicitando a devolução de seu cinto não no hotel, mas em pleno camarote Salvador. Detalhe que Malvado sempre muito minucioso, estava se achando o máximo usando-o em sua indumentária, já que o mesmo ficava aparecendo. E para nosso amigo isso estava proporcionando a ele o máximo da balaca.

Malvado, então, tristemente o devolveu.

“E aí Malvado sua auto-estima caiu?” Leozinho já pressentindo a angústia por que deveria estar passando nosso amigo ao ter toda a harmonia de sua vestimenta desfeita

“Despencou” Malvado cabisbaixo, em tom sério e funéreo

14

“Se formos somar as idades das meninas que Sandro pegou nesse carnaval vai dar 854 anos”

Gilton fazendo um comentário pertinente

P.S Sandro, inclusive, mandou avisar que no carnaval do ano que vem a meta dele será abrir o carnaval com a querida TIA ZILÚ, musa da terceira idade do carnaval de 2008, que estará com 96 anos...

13

“Olhe eu quero lhe falar que estou com esse monte coisas aqui mas não sou viado não, viu?”

Gildo explicando para o amigo de Vilaça, dono da lancha, que já estava achando estranho por que iria disponibilizar sua lancha para 6 homens, sobretudo por que um deles estava cheio de colares e pulseiras mto suspeitas.

A explicação é que Gildo foi o único que fora ao pelourinho, e nessa ida cruzou o seu caminho uma baiana bastante astuta, e a mesma o persuadiu a comprar vários colares (pra ele e sua família) no tempo recorde de 5 minutos. Sem ter onde guardá-los, restou descer do pelourinho com todos em seu corpo: dois colares no pescoço, um colar vermelho todo enrolado no pulso e outro marrom enrolado no outro pulso. Uma combinação deveras suspeita.


12

Vc paga quanto pra trabalhar aqui?”

Gildo para o marinheiro da lancha, acreditando que valesse a pena até pagar pra trabalhar naquela orla de Salvador.

11

“Cadê Malvado?”

Umas das perguntas mais ouvidas em nossa jornada. Realmente nosso amigo autista tinha uma capacidade absurda de desaparecer.

Na mais impressionante delas, ele conseguiu a façanha de se perder em menos de 3 minutos logo após termos chegado no bloco ME ABRAÇA do segundo dia. Detalhe que chegamos todos juntos e estávamos ainda lá atrás onde qualquer pessoa conseguiria nos encontrar, ou melhor, quase qualquer pessoa...

10

Oww Vilaça esse negócio de esnobar mulher não dá certo com a gente não. Dá certo com Malvado, Leozinho, Gilton, que têm cabelo liso, mas com a gente não dá certo não”

Xico em mais uma de suas mirabolantes teorias.

9

- “Powww arrrrrrrsssssss traeghhhh”

A sonoplastia da queda de Malvado no barranco da lama “molhada” (Estava molhada, mas não chovia. Que coisa!). Ainda estava na metade do percurso Barra-Ondina, e nosso amigo estava completamente melado de lama de cima a baixo, e o pior que ele ainda teve que ouvir as risadinhas dos canelais que presenciaram todo o seu rolamento morro abaixo.

Ainda bem que no último dia eles voltaram a se encontrar e fizeram as pazes direitinho (foto abaixo)


8

“Leozinho deixa de ser falso”

Gildo desmascarando o joguinho de nosso amigo.

Momentos antes, em torno de meio-dia, nosso grupo, pra economizar um taxi, foi dividido: Gilton, Xico e Malvado, continuariam descansando no quarto do hotel no ar-condicionado, enquanto Gildo, Leozinho e Vilaça iriam pegar um taxi e ir até o Aeroclube tentar realizar a troca dos abadas em prol de toda a equipe. Detalhe: fazia em Salvador àquela hora em torno de 33 graus, com uma sensação térmica de bem uns 38 graus. Simplesmente insuportável. E pra piorar tudo no Aeroclube o nosso abada do Me Abraça está pessimamente cotado.

Após 1h 30min de negociações infrutíferas, naquela sauna ao ar livre, e vislumbrando o insucesso na missão, resolveram voltar ao hotel. No percurso de volta, receberam várias críticas por telefone do grupo que continuou no bem-bom do hotel, o que fez todos no carro, ensopados de suor, ficarem revoltados. Passaram o restante do caminho inteiro no táxi até o hotel reclamando de como os meninos do hotel eram folgados e individualistas.

Ao chegar no hotel, porém, a surpresa.... Vilaça Bufando de raiva, Gildo sem falar nada com ninguem, e nosso amigo Leozinho, um dos mais exaltados no carro minutos atrás, conversando com os meninos amigavelmente, fazendo um joguinho para parecer sempre o tranquilão. O que não foi perdoado por Gildo.

7

“Reunião de cúpula agora!! Todos os membros aqui”

O capitão Leozinho convocando todos para uma preleção do nosso grupo durante o camarote Salvador.

“Eu quero dizer que acho q Malvado e Gildo são, do nosso grupo, os que mais têm chance de ter sucesso aqui no camarote com as meninas. Por que estão numa pinça melhor que os demais”

Todos ficaram meio atônitos sem entender muito a lógica daquele comentário. Parecia até Xico em mais um de seus devaneios surrealistas. Com a interrogação expressa no rosto de cada um, Kaká se estimulou a continuar

“Vejam bem. Malvado está com um ar meio despojado à semelhança de Paulinho Vilhena e Gildo é forte e moreno com ar de playboy carioca. Nós pobrezinhos estamos lascados, Xico tem cara de matuto, Gilton parece um playboy paulista, Vilaça sua, e eu to muito branco e magro”

6

Mais uma do frasista Leozinho, dessa vez explicando como reconhecer as fases do splinteamento de Malvado:

Fase Inicial: Ele começa a se perder do grupo com facilidade
Fase Intermediária: Ele passa a não se preocupar com o estado do seu cabelo
Fase Crítica: Ele começa a cambalear lateralmente, no estilo "só no sapatinho", e a ficar em pé de modo instável

5

“Que porra é essa Leozinho”

Todos pensando ao mesmo tempo ao ver nosso amigo desfilando COM NATURALIDADE pelo quarto com uma de suas cuecas boxer das mais antigas, cuja eficiência do elástico já não era mais a mesma, o que associado com seus microroliços cambitinhos davam um aspecto um tanto grotesco àquela sua vestimenta e àquela cena

4

“Arabaiana (codinome baiano de Vilaça) se passar mais uma semana aqui, vai virar uma baiana e vender acarajé na praia”

Gildo ao ver Vilaça paramentado com praticamente todos os itens possíveis que se podem adquirir num percurso de trio elétrico. Malvado depois nos ensinou, com seu vocabulário sempre rico e preciso, que se tratavam de penduricalhos. Ao nosso amigo realmente só faltavam uma saia e um turbante de baiana, porque o resto ele já estava expondo, compunham em sua indumentária os seguintes acessórios: três lenços enrolados no braço, dois pares de algemas da Skol (isso mesmo, ele não se contentou com uma apenas), 8 colares de filho de Gandhi, 4 colares da Skol, um chapéu do cowboylino, uma camel bag nas costas, e um crachá do camarote da globo do galo da madrugada (????).

E nesse momento em que a frase foi proferida nosso amigo estava tentado conseguir seu quarto lenço...

3

Estávamos no camarote Salvador, precisamente na boate que ficava no quarto andar, o grupo inteiro reunido. Como ainda estava muito cedo (2:00 aproximadamente) resolvemos descer para ver os trios-eletricos passarem e só subir quando todos tivessem passado. Até aí nada demais. Só que pra chegar ao terceiro andar, era necessário descer uma escada, uma escada traiçoeira. Durante o carnaval, já tínhamos presenciado muitos caindo naquela escada. E toda vez que alguém escorrega numa escada eu me lembro de um show no Classic Hall em que eu mesmo caí umas cinco vezes, e não tem nada mais desagradável do que numa festa sair descendo quicando com a bunda uma escada até embaixo.

Com aquelas lembranças trágicas em minha mente fui liderando a fila do nosso grupo rumo ao terceiro andar. Ditava um ritmo cauteloso na descida, íamos em duas filas indianas, lado a lado, à esquerda estavam eu na frente, Leozinho e Malvado atrás; na fila da direita, um degrau acima, estavam Xico, Gilton e Vilaça, respectivamente. Imediatamente à nossa frente iam duas meninas também descendo lado a lado. Temendo presenciar a queda de alguma das duas bem a minha frente, resolvi alertá-las sobre o grande perigo que estavam correndo:

- Ei, tomem cuidado que essa escada é muito traiçoooooeeiii.....

Exatamente no instante em que terminava a minha frase, por trás de mim, ouço um estrondo: “Poww trreehggtttt” E antes de pudesse ver o que estava acontecendo, senti um misto de voadora assassina e de carrinho de futebol desleal (tipo com as travas da chuteira levantada), dois pés fortes como um míssil, em minha batata da perna. O impulso foi tão forte que fez minhas pernas irem para frente e para cima (em direção ao meu peito) com violência. Passei voando entre as meninas e fui cair de bunda, uns três degraus abaixo, e graças a uma certa vantagem anatômica familiar: quiquei! E o quique foi tão forte que fui parar já quase em pé mais uns três degraus abaixo numa velocidade tão grande que só me restou terminar a descida correndo.

Foi tudo tão rápido que ao chegar lá embaixo pude presenciar o que ainda estava acontecendo: Leozinho, ainda quicava escada abaixo, a mão esquerda tentando se segurar como podia no corrimão, e a direita segurando um copo que ele inconscientemente tentava salvar sua dose de Stolichnaya como podia, tudo em vão,já que estava voando vodka pra todos os lados.

Por trás dele, outro personagem fazia a outra leitura possível daquela cena, além da forma trágica como sentimos eu e Leozinho. Malvado com as mãos nos joelhos, tronco fletido, olhos marejados, ria e gargalhava sem parar...

2

Quarta-feira de cinzas. Todos bastante tristes e desolados pelo fim do tão aguardado carnaval. Mal sabíamos àquela altura que aquela aparente melancólica quarta-feira coroaria todo nosso carnaval com chave de ouro.

Um amigo de Vilaça tinha oferecido sua lancha para passearmos na orla de Salvador, e ele havia nos pedido pra nos encontrarmos com ele no píer da “Bahia Marina”. Ao chegarmos lá, deparamo-nos com uma bifurcação. Indecisos, fomos pedir, então, informação com um segurança quem encontrava-se bem a frente da tal bifurcação:

- “Ohh amigo, o píer é pra lá” Vilaça perguntando todo estabanado como qualquer pernambucano e apontando para um lado qualquer

“Depeeeenndeee. Teeemmmm ummmm píerrrr pra cá (apontando "calllmaaamnennte" pra um dos lados)........ e ouuuutro praa láaa" (apontando pra o outro lado). O segurança anônimo com a peculiar velocidade de falar e o jeito manso dos movimentos, típicos do baiano, que já estão nos dando saudades

1

A frase vencedora e a ainda recheada de mistérios foi proferida por um membro do bloco Crocodilo (bloco GLS de Daniela Mercury) para um de nossos amigos. O nosso amigo estava na pipoca, splinteado, sozinho, parado vendo o bloco passar. Suas feições delicadas, sua barba provocativa e o seu olhar sério e sexy (ou tudo isso junto) estavam fazendo o maior sucesso entre os integrantes do bloco, que passavam e ficavam ouriçados com tamanho sexy appeal. Um deles, no entanto, não conseguiu mais relutar em resistir e com dificuldade atravessou o bloco inteiro para se aproximar de nosso colega quando num movimento rápido levou a mão até o queixo de nosso amigo autista e falou:

“Coisa LINda!!!”

O que se sucedeu após isso é um verdadeiro enigma, e que inclusive os outros membros da equipe não se atreveram a tentar decifrar, de certa forma até com medo do que pudessem descobrir.

Um detalhe, porém, é bastante sugestivo: nosso amigo (cuja identidade foi preservada) chegou ao hotel com sua camisa do bloco vestida ao contrário de forma que os dizeres “me abraça”, talvez até matreiramente, estavam voltados para suas costas.